terça-feira, 24 de julho de 2007

Cuidado com a formatura

A Persona Fartura, sem ter a menor idéia, contribuiu fortemente em minha visão de mundo. Digo isto pelo fato de quando eu era um garoto, passava alguns dias em sua chácara me divertindo o tempo inteiro nas árvores e com os animais. No fim do dia após o jantar, ela me colocava em frente à TV e assistia comigo o seriado Kung Fu. Apesar dela ficar ali comigo apenas fazendo companhia, sem ter muito interesse pelo filme, era ela quem me conduzia a tal situação.

O fato é que com uns 6 anos de idade minha mente ainda não era formatada aos padrões sociais, pois estava ainda me iniciando neste processo e graças a isto pude entender muito dos ensinamentos orientais transmitidos pelo seriado, que diga-se de passagem, possui um ensinamento moral elevadíssimo.

Naquela época o seriado me mostrou três coisas que considero fundamentais até hoje:

"O homem faz parte da natureza". Muitos seres humanos se sentem ainda exteriores a ela, acham que a natureza existe simplesmente para desfrutarmos. A conseqüência disso nós já estamos sentindo na pele. Para termos uma pequena idéia da grandeza da natureza basta percebemos que é ela quem nos acolhe, alimenta, cura e ensina.
Até hoje as palavras de Mestre Kan ficaram guardadas em minha mente: “A serpente nos ensina a flexibilidade e a resistência rítmica. O louva-a-deus nos ensina a velocidade e a paciência. Com o tigre aprendemos a tenacidade e a força e com o dragão aprendemos a cavalgar o vento. Todas as criaturas, as menores e as maiores estão em harmonia com a natureza. Se temos sabedoria para aprender, todas elas podem nos ensinar suas virtudes.”

Conheci também pelo seriado, algo chamado “meditação”. Nunca nenhum adulto tinha comentado comigo a respeito desta prática, escutar o nosso “eu interior”, “a voz do coração”. O fato é que na época eu não aprendi a meditar, mas aprendi que esta “voz do coração” existia. Não digo que hoje eu sei meditar, mas digo que eu medito. Descobri que para meditar não precisamos de técnica nenhuma, o que precisamos é nos exercitar. A mente é muito tagarela e para escutarmos a “voz do coração” devemos aprender a silenciá-la. É aí que fica difícil, mas já sabendo desta dica, a coisa flui. Um dos grandes ensinamentos da meditação é o contentamento. Hoje vivemos em um mundo globalizado movido pelo consumo, talvez seja esta a maior dificuldade da meditação: encontrar o contentamento. O tempo todo somos bombardiados com novas necessidades de consumo e silenciar a mente neste contexto é muito mais difícil do que em uma caverna no Himalaia.

O que acho mais difícil destas lições é a que vou lhes apresentar agora. Trata-se do “controle”. É através do controle que conseguimos atingir mais rapidamente nossos objetivos, pois com o seu domínio, lidamos melhor com o raciocínio, sentimentos e atos. No seriado, vi alguns monges praticando chi kung (veja um exemplo na foto acima). Simplesmente maravilho, é um controle da mente e do corpo surpreendente. Isto é prova de que somos capazes de muita coisa, apenas não sabemos das possibilidades. Controle é fundamental em nossas vidas.

Para finalizar, gostaria de deixar claro que quando criança só pude observar estas coisas pelo fato de que eu ainda não tinha sido formatado ao padrão existente em nossa sociedade. Sei que ao sermos educados para fazer parte do cotidiano social, somos castrados e limitados em nossa visão de mundo, criatividade e até mesmo algo natural ao ser humano, como é o caso da meditação.

Ao escutarmos o que uma criança fala, devemos lhe mostrar qual a relação que existe entre o que ela está demonstrando e o mundo moral. Pelo fato dela ser ainda ingênua, conseqüentemente com o coração puro, poucas vezes devemos dizer que ela está completamente errada. Caso contrário, ela poderá ser castrada e um conhecimento nato será aniquilado. Tomando cuidado com esta situação também criaremos a possibilidade de aprender algo com elas, sendo que o principal elemento desta relação só pode ser o diálogo.

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